Golpe do orçamento no WhatsApp: arquivo .js disfarçado de proposta

Por TecnoHub

3 de novembro de 2026

Uma cliente diz que já tem um orçamento de outra empresa, pede uma condição melhor e avisa que quer fechar negócio. Junto vem um anexo chamado PROPOSTA_COMERCIAL_ORÇAMENTO. A mensagem chegou pelo WhatsApp a uma empresa do Vale do Paraíba em 3 de novembro de 2026, e o arquivo não é um PDF: é um .js, um script que roda direto no Windows quando recebe dois cliques.

É a isca mais recente de uma família de golpes que mira quem vende pelo WhatsApp. O texto muda (fatura, comprovante, lista para orçamento, contraproposta), mas a lógica é a mesma: fazer alguém abrir no computador um arquivo que parece documento e, na verdade, é programa.

Dedo tocando a tela de um smartphone
Imagem ilustrativa. Foto: autor desconhecido (CC0, via Wikimedia Commons)

 
 

Por que um orçamento nunca chega como arquivo .js?

Porque .js é a extensão de JavaScript, e no Windows esse tipo de arquivo é executado pelo Windows Script Host, um componente antigo do sistema que ainda vem ativado. Dois cliques bastam para o código rodar com as permissões de quem está logado. Um documento comercial de verdade vem em .pdf, .docx, .xlsx ou como imagem.

A Kaspersky descreveu em 30 de junho de 2026 uma campanha com o mesmo desenho, usando arquivos VBScript (.vbs) disfarçados de faturas, extratos e avisos de cobrança. Segundo o comunicado da Kaspersky, o script se passa por componente do Windows Update e instala um programa que dá aos criminosos controle remoto do computador: eles veem a tela, copiam dados e acompanham o que a vítima faz.

 

Como saber se o anexo do WhatsApp é um script?

O próprio WhatsApp entrega a pista. Abaixo do nome do arquivo aparecem o tamanho e a extensão (no caso recebido, 398 KB · js) e o ícone traz as letras JS no lugar do símbolo de PDF. Nomes longos com sublinhados e palavras em maiúsculas, como ORÇAMENTO_FINAL, servem para esconder o final do nome na tela pequena.

Extensões que nunca deveriam vir de um cliente ou fornecedor:

ExtensãoO que éAbre como documento?
.js / .jseScript JavaScript do WindowsNão, executa código
.vbs / .vbeScript VBScriptNão, executa código
.bat / .cmdComandos do WindowsNão, executa código
.ps1Script do PowerShellNão, executa código
.exe / .msiPrograma ou instaladorNão, instala ou roda programa
.zip / .rarPasta compactadaPode esconder qualquer um dos itens acima

A variante com .zip circulou no fim de 2025 com a frase “Segue a lista para orçamento” e levava o malware conhecido como Maverick, de acordo com o Boatos.org. O formato .js elimina a etapa de descompactar, o que torna o golpe mais rápido.

 

Abrir no celular também é perigoso?

O risco principal está no computador com Windows, onde o script é executado. No celular, um .js costuma abrir como texto ou simplesmente não abre. O problema é que muita empresa atende pelo WhatsApp Web ou WhatsApp Desktop, e é exatamente esse público que a campanha mira: o arquivo baixado pelo navegador cai na pasta Downloads e fica a dois cliques de rodar.

Outro ponto: o malware dessas campanhas costuma usar a sessão aberta do WhatsApp Web da vítima para reenviar o mesmo arquivo aos contatos. Por isso a mensagem pode vir de um cliente antigo ou de um fornecedor conhecido, cuja conta já foi comprometida.

Smartphone preto segurado com uma mão
Imagem ilustrativa. Foto: Dennis Cortés / Unsplash (CC0, via Wikimedia Commons)

 
 

Por que o texto pede desconto em vez de cobrar?

Porque pedido de desconto é a mensagem que quem vende mais quer responder rápido. Ninguém desconfia de um possível cliente dizendo que quer fechar, e a pressa para não perder a venda reduz a atenção ao anexo. Nas versões anteriores, a isca era a cobrança (boleto vencido, fatura em aberto), que funciona melhor com o financeiro. Agora o alvo é o comercial.

A mesma lógica aparece no golpe do boleto falso em empresas: o criminoso escolhe o documento que o setor está acostumado a receber.

 

Recebi o arquivo e não abri: o que faço com ele?

  1. Não baixe e não encaminhe. Nem para o técnico de TI pelo próprio WhatsApp.
  2. Confirme por outro canal. Se o número é de alguém conhecido, ligue e pergunte se a pessoa enviou. Se ela não enviou, a conta dela foi invadida e vale avisá-la.
  3. Peça o orçamento em PDF ou no corpo da mensagem. Um cliente real não tem problema em colar o valor no texto.
  4. Denuncie e bloqueie o número pelo menu da conversa, e apague a mensagem para todos os aparelhos em que o WhatsApp está conectado.

Se alguém da equipe já deu dois cliques no arquivo, a ordem de providências é outra e o tempo conta. O passo a passo para quem abriu um arquivo suspeito do WhatsApp detalha o que fazer na primeira hora.

 

O antivírus não deveria bloquear isso?

Nem sempre. Segundo a análise do CyberSec Brazil, parte dessas campanhas instala programas legítimos de acesso remoto, usados por empresas de suporte, em vez de um vírus conhecido. Para o antivírus, o software parece confiável. Ter proteção atualizada ajuda, mas a barreira que mais funciona é a pessoa reconhecer a extensão antes de abrir.

O erro mais comum nesses casos é confiar no remetente. O golpe só funciona porque a mensagem parece vir de alguém com quem você já negociou. Um anexo .js é suspeito mesmo vindo do seu melhor cliente.

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